terça-feira, 26 de abril de 2011
sábado, 9 de abril de 2011
Palavra
Para escrever aquela palavra
É preciso conhecer,
Os irmãos que não tivemos.
A casa no fim da rua
A montanha do outro lado,
O fundo do mar.
É preciso reunir os quatro avôs
Os oito bisavôs,
Todos na mesma sala.
É preciso saber
O que viu a tia cega,
Um minuto antes de morrer.
É preciso saber o motivo
Pelo qual a mãe chorava,
Naquele domingo.
É preciso reunir todos os filhos
E os netos que ainda não nasceram,
Na pátria que nunca fez guerra.
É preciso vontade
Mais do que talento,
Determinação.
É preciso o sorriso da mulher
Paz e papel,
E uma boa impressora a jato de tinta.
Riquezas
Quem escreve
Pode sentir-se,
Um ser rico.
Mesmo não podendo
Trazer com sigo,
Suas posses.
Como poderia ele
Engarrafar os oceanos,
Que são dele.
E a luz da manhã
Como poderia guardar,
Onde.
E a brisa da tarde
A perfeita luminosidade,
A paz.
Carrega tudo
Mesmo estando de mãos vazias,
Só assim pode escrever.
Assim todas suas riquezas cabem
No primeiro traço de letra,
Da primeira palavra escrita.
Ser Mestre
Ser mestre é um estado de espírito
Em reconhecer em si,
Um foro apropriado para seu tempo.
Em que mesmo o intangível,
Pode se reconhecer.
Ser mestre é a percepção
De que o melhor está para acontecer,
Pois ele está por perto.
Quando se afasta
Deixa no ato,
O encantamento.
É necessário a cada instante
Se reformular,
Se reformatar.
Não abandona em momento algum,
O estado de afeto.
Não perde a dimensão
Do momento que se está,
Dentro da longa história.
Está em contato
Com a excelência
Que emana de si.
Fora dela
É como o vôo do peixe,
Breve e insustentado.
O mestre não procura ser
De outra natureza,
Senão a sua.
Sabe que por nenhuma outra
A vida pode ir tão longe,
Como através de si.
Sem ninguém ter-lhe falado
Sente a força da alma,
Intraduzível em palavras.
É atraído pelo fluxo
Que converge ao maior,
Sucumbindo no menor.
É oposto ao do mestre.
Se abre a partir de seu peito
A onda de luz pelos braços,
Até abraçar o cosmos.
Entende então o mestre
Que de uma forma invisível,
Ele liga a terra aos céus.
Sente-se então honrado
Em ser portador,
Das sementes do sagrado.
No mar
Soltado o cabo
O último que nos prende,
Ao que é seguro
É o ser.
O veleiro começa a se mover
Bem devagar,
Afastando-se de sua bóia.
O mar calmo dessa manhã
Faz pequenas ondas,
Um peixe salta.
Somente com a mestra
O barco toma o canal,
Corredor para o mar aberto.
Outros chegam.
Depois da ultima baliza
O veleiro enfim se solta.
Aderna docemente a boreste
Pois o velho sudeste,
Chega soprando constante.
A água é brilhante
Reflete o sol à frente,
Como num oceano de luz.
O veleiro flutua na luz
E o vento apenas,
O escora.
Aproxima-se o ponto
Em que se cruza,
A linha da costa.
A partir daqui
Tudo agora é mar aberto.
O costão ficou para trás
Suas escarpas daqui,
São azuladas.
A vegetação e as pedras
Se compõe no espaço,
Para expandir a vida.
No mesmo instante
Que expandimos o mar.
Ir implica em voltar
Mas adentrar o mar,
É algo que não tem volta.
As ondas são maiores
O vento mais forte,
O mar tem mais personalidade.
A navegação mais atenciosa
Não dispensa a beleza,
Das ilhas à bombordo.
A beleza da luz
Convida à proa 120,
Para alinhar ao sol.
Como explicar
Que luz é rumo,
Fora da costa.
O mar é tão verde
Quanto o céu é azul
Na linha do horizonte
A vela tão estufada
Como no peito,
A gratidão.
O veleiro vai
As palavras ficam,
Por serem escritas.
A vida formiga por dentro
Como se nascesse mais uma vez,
Desse mar.
Como foi a primeira
Há bilhões de anos,
Volta a nascer.
Escolhe um coração exaltado
Para revelar,
O conteúdo do vento.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Baleia
Passar um temporada no veleiro
É conhecer mais sobre você mesmo.
Do que e quanto levar
Para a uma temporada.
Longa ou curta
Com ou sem travessia,
Passar sozinho
Uma temporada no veleiro,
É ótima experiência.
No mar a pele fica salgada
E não há água doce,
Que a faça voltar.
Quando também se lava a alma,
E tudo mais.
É um desafio para o corpo
Pois o veleiro,
É morada para o espírito.
Depois de uma temporada a bordo
Nunca mais se é o mesmo,
Nem se vê o mundo da mesma forma.
Muda seu conceito sobre o lixo
Sobre economia de água,
E de como racionar provisões.
O veleiro é uma escola
Onde se aprende a viver fora dele.
No veleiro é como estar,
No ventre de uma baleia,
Vivendo a vida dela,
Porém aprendendo a sua.
Edifícios
São altos
Imitam montanhas
Medidas tamanhas
Se ocupam
De gente de toda idade
Ombream-se
Enquanto sombream-nos
Fazem-se eternos
Como invasores de horizonte
São concretos
Com janelas de alma
São cinzentos
Da poeira não sabida
São ruidosos
Em esquinas disformes
Ângulos sem angulosidade
São apenas blocos esculpidos
Analíticos
São duros como quem os pensou
São abrigos da batalha
Que só se perde
E por isso
Resistem mais do que nós
Que nada mais podemos fazer
Que contemplá-los
Como filhos
De nosso próprio medo