sexta-feira, 18 de maio de 2012

Tarde de domingo, casa nova, batem sinos. A alma se dilata esquece o encolhimento. Os móveis são os mesmas, mudou a luz. E o entendimento que podemos . O telhado inclinado faz desta casa um desenho de criança. Três janelas suspensas para a passagem do sol. O reflexo das águas vencem as sombras, a faz boiar. Num firmamento lento sem ser contado. Talvez em gerações. Assim me sinto nessa janela do eterno. Quanto mais entro nele me percebo. Aceito essas paredes como uma outra pele. Também para esses filhos . Que crescem fora dos muros. Que posam lembrar-se do azul dessas águas. Para dar-lhes a confiança. De que viver é estar no céu.
Atravesso. Travessuras. Escuras traves. Suas . Atrás de versos. Vestos de mim. Tra versos . Atravesso o rio. Chego à outra margem. Travessia. Tra-so. Tarso . Travesso.
Ubatuba é longa descida, longa viagem. No fim da serra, o cheiro do mar, cheiro úmido. Chegar em casa, a velha casa perto da praia. Ver os moveis que contam histórias de outras moradias. Contam a solidão e cupins que por todo um ano. Ninguém veio ouvir. Casa cheia de marcas. Azulejos mais amarelados em doces lembranças. A trinca no vidro se perpetua. O opaco do assoalho é perene. Pendurar a rede na varanda. Olhar a montanha e sentir quem realmente sou.
Venho para casa. Chego de madrugada da viagem longa. Abro a porta como se fosse minha alma. Respiro o ar guardado da outra semana. Vejo os brinquedos que sobraram no sofá. O piano ficou aberto e o tapete fora de lugar. Me aproximo como quem se distancia. Sinto o doloroso conforto de estar só em casa. Casa que já não sei quanto tempo não moro. Camisas e sapatos procuro em armários errados. Difícil quando não encontro as partes minhas. Faço de contas que não faço contas. Me lanço como sementes ao vento. Onde cairão ? darão fruto ? virarão alimento ? Sementes de toda humanidade. Que carecem significado. O que faz essa porta que abro ser tão diferente. É o mesmo que a faz tão igual . É o que me põe em contato quando me faz entrar. Isto é, com o mais fundo de mim.
Passando por Piracicaba. Pela manha encontrei meus primos. Sabia da existência deles. Mas nunca tive o movimento de parar. Perguntar por eles . E encontrei-os aos montes. Fomos nos indentificando. A mesma tonalidade dos olhos. Semelhanças externas e internas. Ali estávamos como espelhos . Eu diante a mim mesmo. Um pouco de conversa. E mais fatos curiosos. Ficou patente a necessidade . Que temos de uns dos outros.
A longa noite do século passou deixando a luz da aurora romper o tempo. E pelo atalho do imediato acessar o conteúdo do inconsciente. Passar de geração em geração de historia em historia. Decifrar o enigma da vida. Ser homem enquanto homem. De meus antepassados drama, delírio e dor. Abrir o conteúdo grafado em proteínas espiraladas. Traduzir suas estruturas. Avaliar o significado da existência e consistência. Rasgar o véu da separação. Assim proponho este trabalho que no fundo. É o de cada ser humano.
Vivo a transição de gens em gente. Vivo a possibilidade de dar possibilidades. Enquanto vivo reúno as condições de vida. Que estavam separadas no universo. Então as contraio delas estraio. A seiva do entendimento. Quero passar essa zona de transição. Onde cada um procura só a si mesmo. Para chegar onde o universo quer se explicar. Este sentimento me acompanha desde menino. E como menino me lanço nele. O contraio com dor de parto. E disso espero ver nascer o novo. Nele e em mim. E que venha para todos. Que responda para todos. E que passe pelo silencio. A tremenda vontade de seguir na vida. Aposta loucamente na emocionalidade. Mas o que quer seguir seguindo. Só é possível em algo mais profundo. Então me lanço em sua segunda vertente. Mergulho na escuridão e na ausência. Supero a sensação de solidão. E parto de novo, abro os braços. Me deixo cercar pelo que nunca pode se aproximar de nada. Ondas cores e sons que não puderam ser contadas. Como as perdas não contadas nas batalhas ganhas. Como o ganho das batalhas perdidas. É presente que se aproxima e me toca. Como meus dedos respondo no teclado do computador. Eu sou teclado e manifesto . O que o universo tem em si guardado. Nuvens de gás, peso de fumaça, atração de átomos. Um gélido confortável primal embrionário quer luz. Quer o amor que seja bom para todos.