sexta-feira, 18 de maio de 2012
Por trinta anos gravitei a figura de meu pai.
De tal forma que pensei ser assim.
Depois disso continuei o gravitando.
E como um planeta cansado me afastei.
No esforço inútil de gravitar outro alguém.
Me reverti.
Como um imã ao pólo oposto.
Como um acido a uma base.
E hoje caiu a ficha.
Não gravito mais ninguém.
Não quero substituir nenhuma figura.
Não quero criar conforto .
Me disponho a me inteirar.
Gravitar a imensa vida.
E ser quem sou.
Retorno à casa que morei por muitos anos, uma vida.
As portas são as mesmas que me deram passagem quando parti.
Algo há que não mudou.
Enquanto eu não sou mais o mesmo.
Os sofás perderam tons.
Ganharam rasgos as poltronas.
Essa casa é um ar que respirei.
Encontro conforto na última gaveta.
Da consciência.
Um pedaço de mim que por aqui ficou esquecido.
A esperança que o adulto saberia ver a criança.
Que ainda espera pela chegada dos seus.
Mas para isso .
Essas portas não se abrem mais.
Quando entra uma tela nova.
Sinto aquela hesitação.
De quem pilota um jato.
Naqueles minutos antes da decolagem.
Passa a mão sobre os controles.
Para sentir o poder da maquina.
Assim me sinto deslizando os dedos.
Sobre as teclas desse computador.
Sinto o poder de uma palavra.
Que traga sentido.
Abra possibilidades no leitor e em mim.
Como janelas para se entrar o ar.
Como espelho em que ele possa olhar.
E se ver.
Quando era criança
A lua tocava o teto do telhado
As estrelas eu alcançava com as pontas dos dedos
Amava meus avós que eram todo o passado
Amava meus pais que eram mais eu do que eu mesmo
Quando fiquei menino rasgava as calcas nos joelhos
Minhas horas eram poucas para tanta vontade de brinquedo
Quando fiquei mocinho tinha braços curtos para abraçar o mundo
Quando jovem tinha pernas pequenas para andar tantos lugares
Mas quando virei adulto
Descobri em mim um coração capaz de fazer tudo isso
Sem nem precisar sair do lugar
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