sexta-feira, 18 de maio de 2012
Paulo e eu saímos da empresa no mesmo dia.
17 de abril de 2007.
Nisso continuamos fraternos.
Apesar de divergir em tantos pontos de vista.
Ele foi a aura da empresa desmistificada e leve.
Cheia de energia vital.
Tocamos juntos a empresa por quinze anos.
Outros dez antes disso.
Poupamos um ao outro de chateações.
Fomos muito mais do que patrão e gerente.
Conseguimos esticar a duração.
De uma empresa mergulhada em problemas.
Dependente de uma única matéria prima.
Viu-se da noite para o dia sem ela.
O jeito foi arriscar e construir algo novo.
Podemos continuar ser.
O melhor de nós mesmos.
Mesmo sem ter ao outro para reportar.
Faremos nosso trabalho correlato.
Ele o dele, eu o meu.
No que quer que façamos.
Continuaremos a novena.
Para essa palavra que não sei qual.
Me faço escritor.
Não descritor que fala olhando o passado.
Não de ficção que imagina o futuro.
Mas o que segue no contra fluxo do medo.
No mais instante presente.
Mesmo sem palavras.
Ser escritor de uma palavra só.
A que brota neste exato momento.
Na alma de quem lê.
Ser escritor é saber fazer companhia.
Para as perguntas sem responde-las .
Como velhas amigas mantendo-as novas.
Seu trabalho não pode ser medido em páginas.
Mas em vidas que se descobrem na mesma direção.
Uma única pessoa pode fazer valer tudo.
Devolve o destino de avançar a vida.
Na direção do significado.
Por meio de palavras.
Que extrapolam o entendimento.
Palavras escorridas .
Pois nunca alcançam o logro.
De expressá-las em justas medidas.
Fazendo com quem lê.
Considere a dimensão de si mesmo.
Ser escritor é viver da dor.
De que se tem servido .
A inércia do tempo.
Mantém-nos reféns.
De nossa consciência.
Então se volta atrás.
Fica na infinita impotência da palavra.
Até o ponto zero.
Ser escritor.
É ser desenhador de textos.
É ser pintor de palavras.
É encontrar tempo para escavar o mundo.
Enquanto escava a si mesmo.
É traduzir olhares que vão saindo.
Mesmo os que não lhe pertencem.
Escrever é atravessar séculos .
É tocar a face oculta da solidão.
É fazer de cada dia uma obra prima.
É não se deixar intoxicar por ambições.
Manter-se vazio mesmo na gargalhada.
Se chorar não se desespera.
Sabe que o mundo todo é seu presente.
Sabe que sua alma é a alma de todas as almas.
Sabe ouvir o lamento com afinidade.
Sem se entregar.
Assume ser a medida.
Pela qual o universo conhece a si próprio.
Vê nas coisas o melhor.
Contempla sem pressa.
Por isso não o toca enquanto faz encanto.
Reconhece seu trabalho.
Como absolutamente necessário.
Dá tributo onde houve omissão .
Valida onde houve menor valor.
Alcança desconhecidos tão necessários.
Descarta hipóteses fracas.
Que não silenciam perguntas.
Sigo a luz como um gira sol,
Não sei fazer outra coisa,
Somente assim não sou nulo,
A luz, qualquer luz é melhor que meu escuro,
Como é duro ter olhos e não ter luz,
Sou fotofílico, foto sensível, foto sustentável,
Sou foto gâmico, só sei amar o que tem luz,
Sou foto fágico, me alimento do que esta iluminado,
Dependo em tudo da luz,
Tanto que esqueci de ser,
Sou cego para o interior,
Sou convidado para outra visão,
Sou convidado para ser emissor,
Quando olho o rio sou as suas águas,
Pode ser que encontre a passagem para os significados,
Sem precisar do porre das idéias,
Da refringência do pensamento,
Ou do ralento da palavra,
Então num único olhar,
Poderá se conter todo universo,
E ser vazio tanto quanto ele está,
Noite a dentro.
A solidão de escrever deitado na cama.
Deixando os dedos prontos .
Sobre as letras prontas.
Para a possibilidade da palavra.
Escrever é transpor essa barreira.
É tirar a casca das coisas.
Descortinar o conteúdo .
Mas o corpo deve estar sadio.
Para captar o que se lhe é mostrado.
Visto-me de papel.
Destapo-me a caneta.
Deixo me vir.
Assinar:
Postagens (Atom)